“Tradicionalismo é a fé morta dos que vivem. Já tradição
é a fé viva daqueles que já se foram” – Jaroslav Pelikan
“O progresso da história é um andar de costas” – Ditado
Indígena


As palavras do apóstolo Paulo à igreja de Tessalônica nos fornecem uma
instrução bem clara acerca da importância da tradição para o povo de Deus: “Assim,
pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja
por palavra, seja por epístola” (2Ts 2.15). A igreja dos tessalonicenses estava inundada
por um mar de dúvida acerca de questões envolvendo Satanás e suas ações e a
esperança da segunda vinda de Jesus. À luz dessas questões, Paulo os exorta a
permanecerem firmes naquilo que foram instruídos seja por palavra ou por carta, a fim
de não sucumbirem ao desespero ou a falsa doutrina.
É interessante notarmos esse princípio de “permanecer firmes e guardar as
tradições”, pois na época de Paulo o mundo era completamente influenciado pela
cultura grega, isso significa que aquela sociedade não prezava por suas tradições, antes
desejavam sempre alguma novidade. Para entendermos essa questão, devemos
lembrar de que enquanto no mundo dominado pela cultura grega surgia aquele
trabalho intelectual, no qual o grande alvo é fazer novas descobertas, a fim de que o
aluno tivesse uma medida para se avaliar e assim perceber se havia superado seu
mestre. Todavia, o trabalho intelectual em Israel havia tomado um rumo
completamente diferente em vista da lei que cumpria preservar e obedecer. Acima de
tudo cabia acolher o que os pais haviam experimentado e ouvido, e transmiti-lo com
máxima fidelidade e clareza à próxima geração. Aqui está enraizado o conceito da
doutrina “pura”, isto é, não deformada nem deturpada por nenhuma arbitrariedade.1

1BOOR, Werner. 2Tessalonicenses. (Comentário Esperança). Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2007, p. 133

A tradição (fé viva dos que morreram) que Paulo faz menção não é o
tradicionalismo farisaico (fé morta dos que vivem) que havia recebido, mas a
verdadeira tradição dos profetas e apóstolos que aquela e todas a todas as igrejas no
decorrer dos séculos deveriam se apegar. Tendo esclarecido essas verdades, fica a
pergunta: “as sociedades internas fazem parte da tradição ou do tradicionalismo da
nossa herança presbiteriana?”, “É uma fé viva ou morta?”. Embora nenhuma forma de
governo seja perfeita e canônica, acreditamos que o modo presbiteriano de trabalhar
com as sociedades internas faz parte da nossa rica tradição, fazendo com que nos
remonte a fé viva de nossos pais. Vejamos algumas razões para crermos assim:
Em primeiro lugar, as sociedades internas ajudam no governo da Igreja. Há
três formas principais que aparecem ao longo da história da Igreja. Há a forma
episcopal. Nessa forma, um governa todos e assim todas as decisões doutrinárias e
administrativas vem do pastor, bispo, presidente. Outra forma bem comum é a
congregacional. Nessa forma, todos governam, desse modo, o processo de decisão
passa para toda a assembleia de membros. E por fim, há a forma representativa que é
a forma adotada pelo presbiterianismo. Nessa forma, as decisões são tomadas por um
conselho de presbíteros eleitos. Quando a sociedade interna trabalha assiduamente, a
representatividade é exercida, e com isso o pastoreio é fortalecido, pois a
comunicação entre membros e o conselho fica medida pela diretoria, a fim de notificar
eventuais problemas e solicitar qualquer tipo de ajudar, seja assistencial ou espiritual.
Em segundo lugar, as sociedades internas ajudam no fortalecimento da
denominação. As atividades das sociedades internas servem muitas vezes como uma
espécie de cola social que uni diferentes igrejas, seja no presbitério, no sínodo ou até
mesmo uma união a nível estadual ou nacional. Desse modo, é interessante ver
quando sociedades ajudam no trabalho de outras igrejas. Essa ajuda pode fortalecer
um trabalho que está com grandes dificuldades e também fornecer uma teia de
relacionamento donde podem surgir grandes amizades e até mesmo futuros
casamentos. É uma grande alegria ver o povo de Deus casando entre si, em
contrapartida, é triste ver nossas filhas e filhos buscando no mundo a pessoa com que
vão assumir votos matrimoniais.

Em terceiro lugar, as sociedades internas ajudam no aconselhamento mútuo.
A tarefa de aconselhamento é sublime e não é exclusiva do pastor da igreja. Paulo, em
uma de suas cartas, escreveu: “… aconselhai-vos e edificai-vos mutuamente…” (1Ts
5.11). Baseado nessa verdade, o pastor Edward Welch escreveu: “Como temos uma
longa lista de nossos próprios problemas, podemos facilmente achar que é melhor
deixar o cuidado com os outros a cargo daqueles que são mais qualificados. Mas o
reino de Deus opera de maneira algumas vezes inesperada para nós. Aqui os fracos e
humildes são aqueles que fazem o trabalho pesado do cuidado pastoral”.2 Portanto,
onde há convívio e amizade de crentes verdadeiros, há também uma excelente
oportunidade para o aconselhamento cristão. Por que não nas sociedades internas?
Nelas, podemos cultivar a pastoreio mútuo, chorando com os que choram e se
alegrando com os que se alegram.
Em quarto lugar, as sociedades internas nos ajudam amadurecimento
espiritual. Ninguém é uma ilha espiritual! O amadurecimento na fé cristã acontece no
contexto da igreja. Sem pertencer verdadeiramente a uma igreja seremos como “como
meninos, agitados de um lado para outro ao redor por todo vento de doutrina, pela
astúcia dos homens, pela artimanha com que induzem ao erro.” (Efésios 4.14). Desse
modo, como escreveu o pastor Jeff Lacine, “quando ventos de doutrina contrários
tentarem nos tirar da rota, o ministério da igreja local serve para nos concentrar no
que é importante: o evangelho. Todos nós temos a necessidade de ensino, pastoreio e
prestação de contas para nos manter na trilha. Por conta própria, somos facilmente
enganados e distraídos daquilo que é a coisa mais importante na vida”.3 Na sociedade
interna, podemos ajudar aqueles irmãos estão tentados a caminharem por um
caminho distante do evangelho. Portanto, devemos enxergar as sociedades internas
como uma base militar espiritual e não como um parque de diversões. O foco está no
fortalecimento e não no entretenimento.
Em quinto lugar, as sociedades internas nos ajudam a descobrir nossos dons. É
comum vermos pessoas na igreja com “crise carismática”4. Essa crise pode se dar por

2WELCH, Edward T. Aconselhando uns aos Outros. São José dos Campos, SP: Editora Fiel,2019.
3LACINE, Jeff. A Igreja Local Ajudando Você Crescer. In: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2021/11/a-igreja
local-ajudando-voce-a-crescer/
. Acesso em: 15 de nov. 2022
4A palavra “carisma” é uma palavra de origem grega que traduzida para o português significa “dom”.

dois motivos: Primeiro, há aquela pessoa que está exercendo uma função na igreja a
qual não casa com seu dom. Nesses casos, é comum o crente enxergar o serviço na
casa de Deus como um fardo, e quando isso acontece, as críticas quanto ao trabalho
desse crente não demoram muito para chegar aos ouvidos da liderança. Segundo, há
aquela pessoa que está confusa acerca do seu dom. Normalmente, nesse caso, a
pessoa nunca foi achegada nos trabalhos da igreja – no caso presbiteriano, nas
sociedades internas. Sendo assim, o trabalho de sociedade interna é um bom remédio
contra a “crise carismática”. Desse modo, devemos cultivar as sociedades internas,
pois nelas veremos futuros professores, presbitérios, diáconos, pastores, e líderes de
modo geral, para que assim o povo de Deus seja cada vez mais edificado.
Ao refletirmos cuidadosamente acerca dessas razões, veremos que as
sociedades internas não são fruto do tradicionalismo vazio do passado, mas fruto da
boa tradição que nossos pais nos deixaram, a fim de que o pastoreio da igreja fosse
mais organizado e efetivo. Inseridos em uma cultura que despreza o passado, reerguer
os trabalhos das sociedades internas é um brado contra as tendências sorrateiras de
nossos dias que procuram solapar a riqueza que há em nossa tradição. Portanto, o
desafio de nossa igreja para o ano de 2023 é este: resgatar o valor da nossa tradição,
as antigas veredas, e trabalhar com afinco em nossos projetos, a fim de pastorearmos
uns aos outros e juntos crescermos na graça e no conhecimento de nosso Deus.

São Paulo, 15 de novembro de 2022
Sem. Daniel Ruvenal
Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere

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